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O Sinal da Cruz

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O Sinal da Cruz


Por Carlos Vieira

www.carlosvieirajr.blogspot.com

A cena da cruz, uma das mais célebres do cristianismo, é também umas das cenas mais clássicas. Isso, partindo de um pressuposto de que clássico é mais que uma tradição, é algo que transcende o tempo e nos permite uma intertextualidade a partir de nossa realidade.

O que quero dizer é que não se trata apenas de um símbolo religioso, mas uma cena de muitos valores e muitas reflexões válidas para nossa existência. Para exemplificar, gostaria de ressaltar alguns substantivos: permanência, lealdade, horizontalidade e sentido.

Na cena de Cristo crucificado, chama-nos a atenção a permanência de sua mãe, Maria. Será que nós permanecemos até o fim diante daqueles que amamos? Será que temos ficado firmes ante aqueles que são julgados, crucificados e condenados pela sociedade ou maltratados pela complexidade da vida? Ao lado de Maria, João. Mas, só um minuto! Não era Pedro quem tinha tentado defender a Jesus? Pois é. Mas em dado momento sua fraqueza falou mais alto e ele negou a Cristo três vezes. João, porém, ali estava, diante da cruz. Confesso que, se estivesse na cruz, perguntaria em tom raivoso: “onde está Judas? Se eu desço dessa cruz eu pego aquele desgraçado. Cadê Pedro?” E a partir disso reflito: quantas vezes pensamos tanto nos “Judas” que não estão ao pé de nossa cruz que esquecemos ou não observamos tanto aos que, como João, são leais até em nosso calvário. Pedro disse ser leal, mas João foi quem permaneceu. Vale o ensinamento de que dizer não é o bastante.

Outra coisa que me chama a atenção, pode até parecer sandice de minha parte, é o fato de a cruz ser constituída de duas retas. A sua verticalidade me faz pensar que há uma relação mística entre o céu e a terra, que há uma relação entre Deus e a humanidade, mas é o traço horizontal que permite a abertura dos braços de Cristo e me faz chegar à conclusão de que não pode haver divindade sem que estejamos de braços abertos àqueles que estão perto de nós, ao nosso lado. Enquanto muitos preferem os braços cruzados, a cena da cruz talvez nos ensine a abraçarmos mais aos outros.

Próximos à cruz também estavam soldados que sortearam as vestes de Cristo. Fico pensando em muitos que hoje estão diante da cruz em tantas igrejas, mas não estão para permanecer e sim para brigar por um pedaço da veste, por uma lembrança divinal ou por tradicionalismo temporal.

Por fim, levando em consideração que vivemos entre o belo, o lúdico e o místico da vida, fico a pensar nessas inclinações, nisso que talvez esteja na subjetividade, nas entre linhas das escrituras. Não quero aqui a particularidade daqueles que creem ou vislumbram a cruz simbolicamente. O que faço é elucidar uma possível reflexão para a vida a partir de uma cena religiosa. Mas fica o recado aos cristãos: mais do que cultismo, talvez seja bom parar por um instante e pensar nas inúmeras reflexões que tal cena pode nos trazer. A grandiosidade da cena não está na cruz em si, mas no ato que a confere tamanha representatividade e pode nos levar a refletir sobre nossos valores e sobre nossa sociedade. Imagino que um dos grandes recados que essa cena no traz é que a lealdade não está no falar, mas no permanecer quando tudo parece acabar. Permanecer diante dos nossos sonhos, diante daqueles que nos amam e diante dos desafios. Na vida de todos haverá um Judas, haverá quem nos negue, haverá quem lave as mãos diante de nós, haverá quem nos condene. Mas haverá os que permanecerão conosco, pois pode ser que o fim de um mundo não seja o fim do mundo, mas o recomeço de uma nova história. Esse é o sinal da cruz.

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