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Carlos Vieira – Comentário da Semana

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Carlos Vieira – Comentário da Semana


Carlos Vieira Radialista, colunista Liga Jovem

Diz o ditado que “pimenta nos olhos dos outros é refresco”.

Terminamos uma semana conturbada marcada pela confirmação da condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Ele não só teve a condenação confirmada por três desembargadores como também teve pena aumentada para doze anos e um mês de prisão.

Os petistas agora reclamam que “deu ruim pro Lula”, mas que a outros a justiça não funciona. Porém, tal pensamento parece ignorar que um ex-presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha, está preso, que o ex-governador do Rio, Sérgio Cabral está preso, que um dos maiores empresários deste país, Eike Batista, também está preso. Por que o Lula, um ex-presidente da república, não pode ser condenado pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro? “Ah, mas o Temer tá bem, obrigado!”. Alto lá! O presidente Michel Temer só não está encrencado porque os deputados (os mesmos eleitos por todos nós) votaram contra a admissibilidade das denúncias contra ele. Em 29 de outubro de 1989, em um programa de TV, Lula disse a seguinte frase: “’Nós vamos provar que você pode tranquilamente colocar corrupto na cadeia”. Hoje, o mais intrigante é o fato de a frase ironicamente sagrar-se contra si mesmo, caso sejam esgotados seus recursos na justiça (lembrando que agora lhe restam apenas recursos declaratórios). O PT quer as instituições funcionando, mas não contra o partido. O PT quer reformas, mas não para eles. É perseguição política? Não. É o cumprimento daquilo que foi escrito na própria sentença dada pelo juiz federal Sérgio Moro: “não importa o quão alto você esteja, a lei ainda está acima de você”.

Durante todo o julgamento, os desembargadores trataram de derrubar a tese de falta de provas. Cá pra nós: um presidente de uma empreiteira vai servir de “corretor de imóveis”? Foi um dos questionamentos do relator do TRF-4, João Pedro Gebran Neto: ‘causa estranheza que o presidente de uma das maiores empreiteiras do País (Léo Pinheiro) faça as vezes de mestre de cerimônia ou, segundo a tese da defesa, de corretor de imóveis na apresentação de um apartamento a um ex-presidente da República’.

Se por um lado não precisamos da mitificação de um político como herói, também não é preciso endeusar a Sérgio Moro. Não se trata de reconhecimento ou não, mas é que quando um país precisa de um herói acaba dizendo que suas instituições não estão funcionando. No caso em questão, elas estão.

Nos séculos iniciais do Cristianismo, a estratégia da Igreja Cristã para a difusão de seus ideais consistiu no surgimento do dogma. Com pensamentos desconhecidos pelos filósofos greco-romanos e com dificuldades em justificar ideias, alguns preceitos foram dados como dogmas, ou seja, verdades divinas inquestionáveis. Assim, gerou-se a divisão entre aqueles que acreditavam que fé e razão não eram conciliáveis, aqueles que achavam que poderiam se misturar, mas a razão seria subordinada à fé e aqueles que acreditavam que as duas coisas podiam conviver, porém, em campos separados. No Brasil, o PT parece transformar a defesa de Lula em dogma. Sem conseguir emplacar estratégias de defesa, tenta transformar em dogma (verdade inquestionável) a defesa do ex-presidente. Para completar, ainda numa metáfora religiosa, a presidente do partido, senadora Gleisi Hoffmann, parece tentar “amedrontar” o país em tom apocalíptico em caso de prisão do ex-presidente. É como se dissesse que se Lula for preso o sol se apagará e o apocalipse chegará.

A condenação de um ex-presidente da república não é comemorável. É triste que se tenha chegado a tal ponto. O PT não criou a corrupção, mas por vaidade a institucionalizou de tal forma que agora deu no que deu. Para alguns, numa típica declaração adâmica brasileira, “Lula se corrompeu, mas ajudou o país”. Ora, crer nisso é a mesma coisa de alguém roubar seu carro e te dar carona pra que você não vá a pé. Por fim, disse bem o revisor da Lava Jato no TRF4, Leonardo Pulsen: “A corrupção cometida por um presidente torna vil o exercício da autoridade. Aqui, ninguém pode ser condenado por ter costas largas, nem absolvido por ter costas quentes.” De tudo, aqueles que seguem cansados de corrupção, não precisam espera que a justiça julgue tantos fatos e tantas denúncias. O maior júri político chama-se urna. E isso basta.

Carlos Vieira – [email protected]

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