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A Igreja do Diabo

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A Igreja do Diabo


Carlos Vieira

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 Sempre que se ouve falar de Lucifer (o demônio) imagina-se um ser avermelhado de sorriso irônico, risada maquiavélica com chifres e rabo. Mas percebi com o passar do tempo que essa é apenas uma de suas faces, talvez a mais fantasiosa. Hoje, percebo que ele às vezes veste gravata e inflama discursos políticos. Recentemente, percebe-se que ele também pode se vestir de branco, usar uma estola e citar as escrituras quando lhe convém.

Não é de hoje que inúmeros casos de pedofilia na Igreja Católica vêm à tona. Todos são preocupantes, mas o da última semana no estado da Paraíba ultrapassa limites. A Arquidiocese da Paraíba foi condenada a pagar cerca de R$ 12 milhões em indenização por abusos sexuais cometidos por um grupo de sacerdotes. Segundo informações dadas pelo procurador do Ministério Público do Trabalho na Paraíba (MPT-PB), Eduardo Varandas, ao “Fantástico”, da Rede Globo, um grupo de sacerdotes pagava por sexo a flanelinhas, coroinhas e seminaristas. Mas há indícios de que isso pode ter ido ainda mais longe. Um flanelinha que havia dado declarações à justiça e afirmado ter tido relações sexuais com um dos padres foi assassinado em dezembro de 2016, o que levanta a suspeita de queima de arquivo. Um ex-seminarista afirma já ter sido ameaçado. As apurações do Ministério Público ainda apontam envolvimento direto do então Arcebispo Dom Aldo Pagotto.

Não precisamos ir muito longe. Em 2007, o padre Cléber Domingos Gonçalves, de 35 anos, foi preso por pedofilia em Belo Horizonte. Em maio de 2010, outro padre foi preso pelo mesmo motivo em região centro-sul da capital mineira.

O inigualável mestre Machado de Assis escreveu um conto há mais de cem anos atrás cujo nome é, no mínimo, intrigante: “A Igreja do Diabo”.

Diz o conto que o demônio, invejoso como sempre, foi reclamar com Deus dizendo que queria ter sua própria igreja. E assim o fez. Pregando o adultério, a vaidade, a inveja, a avareza e outros prazeres capitais, em poucas semanas a igreja se encheu. Porém, o tinhoso percebeu que várias pessoas se abraçavam, pagavam dízimo e tinham outras práticas. Irado, ele resolveu reclamar com Deus. Este respondeu ao demônio que era fruto da contradição humana e tudo o que mandasse fazer eles fariam o contrário. Assim era na igreja de Deus e, na igreja do diabo, não seria diferente. Moral da história: Se na igreja do Diabo há quem faça coisas de Deus, na igreja de Deus há, sem dúvidas, aqueles que fazem coisas do Diabo.

Recentemente, o Papa Francisco se pronunciou e reconheceu o que ele chamou de ‘atrocidades’. Mas a Igreja ainda precisa sair das palavras, parar de acobertar padres criminosos e fazê-los pagar por atos tão vis. Francisco tem ficado sozinho nessa luta porque até mesmo cardeais da alta cúpula vaticana têm envolvimento em casos de pedofilia.

Segundo dados do Datafolha, a Igreja Católica perdeu cerca de 9 milhões de fiéis entre outubro de 2014 e dezembro de 2016. No mesmo período, houve um crescimento de 29% de protestantes e a estimativa é de que em 2030 os católicos deixem de ser maioria no país.

Ao que tudo indica, Deus ainda é “um grande negócio” e nem todo aquele que diz “Senhor, Senhor” entrará no Reino dos Céus. Aqueles que realmente se comprometem com Evangelho de Cristo precisam lutar de forma mais aguerrida contra a pedofilia na igreja. Afinal, os filhos das trevas são mais ágeis que os filhos da luz.

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